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PASSEIO

Idosos mantêm tradição de passeio: 'Ficar em casa não é a melhor opção na velhice'

Grupo composto por homens de 60 a 90 anos se encontra de segunda a sexta-feira para jogar baralho, dominó e conversar. Para eles, essa prática é considerada um verdadeiro patrimônio.

10/08/2019 11h29
Por: Redação
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Grupo composto por homens de 50 a 90 anos se encontra de segunda a sexta-feira para jogar baralho, dominó e conversar — Foto: Giuliano Gomes/PR Press
Grupo composto por homens de 50 a 90 anos se encontra de segunda a sexta-feira para jogar baralho, dominó e conversar — Foto: Giuliano Gomes/PR Press

Uma mesa, um baralho ou dominó e uns amigos. É tudo o que precisa ter para um grupo de idosos passar o tempo e afastar a solidão que, muitas vezes, aparece quando chega a aposentadoria. O lugar: Passeio Público de Curitiba, o primeiro parque da cidade.

"Isso aqui é patrimônio. Engana-se quem pensa que estou falando só do parque, na verdade falo de nós e da nossa diversão em jogar ao lado de outras pessoas que entendem que ficar em casa não é a melhor opção na velhice", disse o João Chiucu, de 82 anos, que é um dos jogadores assíduos.

Chiucu conta que joga no parque há cerca de 50 anos.

Quem também frequenta há muito tempo o parque é o Francisco Ferreira, de 88 anos. Ele disse que não sabe ao certo, mas acredita que faz uns 30 anos que joga ali. "Quando trabalhava vinha meio salteado, agora venho direto. Não mudou muita coisa, só poderia ter um banheiro mais próximo", relatou ele.

Os idosos também dizem não entender o motivo dos sanitários fecharem horas antes do parque fechar.

Diferentemente da Boca Maldita, na Rua XV, no Centro de Curitiba, onde os idosos sentam apenas para conversar, no Passeio Público a diversão é outra. Começando por volta das 12h, o jogo pode chegar até as 20h, horário em que o parque fecha.

João Chiucu, de 82 anos, é um dos jogadores assíduos. Segundo ele, joga no parque há cerca de 50 anos — Foto: Giuliano Gomes/PR Press
João Chiucu, de 82 anos, é um dos jogadores assíduos. Segundo ele, joga no parque há cerca de 50 anos — Foto: Giuliano Gomes/PR Press

O jogo de cartas favorito é a tranca, mas há também parceiros para partidas de truco, pife, dominó e, algumas vezes, até xadrez.

"Venho aqui para contar causo. Após tantos anos de trabalho, sonhamos com o tão sonhado tempo livre. Porém, quando a aposentadoria chega, o que fazer? O parque é o meu refúgio. Fico tão feliz quando consigo vir, treino até em casa para ganhar deles", disse Raimundo Idalino de Araújo, de 73 anos, morador do bairro Prado Velho.

As regras de cada jogo variam, por isso é importante se enturmar antes de começar a jogar, segundo os integrantes.

"Eu venho aqui há dez anos, apenas. Cheguei de mansinho e os amigos que tenho na vida são eles. Eu não tenho família, portanto é aqui que me sinto acolhido e querido", contou Antônio Juarez, de 62 anos.

 

O jogo de cartas favorito é a tranca, mas há também parceiros para partidas de truco, pife, dominó e, algumas vezes, até xadrez — Foto: Giuliano Gomes/PR Press
O jogo de cartas favorito é a tranca, mas há também parceiros para partidas de truco, pife, dominó e, algumas vezes, até xadrez — Foto: Giuliano Gomes/PR Press

Estratégia contra a solidão

O cheiro da natureza, o canto dos pássaros e até o barulho do trânsito, tudo é apreciado por eles de maneira carinhosa.

"As horas não esperam, e o tempo passa muito rápido. As costas podem até doer depois, mas durante é incrível", contou o aposentado Vicente José, de 75 anos.

Como em toda partida, normalmente tem uma pessoa que perde mais. No grupo, quem se considera o azarão é o Pedro Paulo, que não revela a idade de jeito nenhum.

"Venho desde 1973 jogar dominó e baralho aqui. É tudo na esportiva. Eu que sou responsável, normalmente, por anotar os resultados. Eu perco, né. Alguém tem que perder", brincou ele.

E tem quem venha de bem longe encontrar os amigos. Otávio Portes Pilar, de 84 anos, vem todo o dia de Rio Branco do Sul, e José Ilto Vieira, de 67, vem de duas a três vezes na semana de Piraquara, ambas na Região Metropolitana de Curitiba (RMC).

Segundo eles, a família adora que eles passeiem. Além disso, a saúde até melhorou depois que começaram a participar.

O cheiro da natureza, o canto dos pássaros e até o barulho do trânsito, tudo é apreciado por eles de maneira carinhosa — Foto: Giuliano Gomes/PR Press
O cheiro da natureza, o canto dos pássaros e até o barulho do trânsito, tudo é apreciado por eles de maneira carinhosa — Foto: Giuliano Gomes/PR Press

Palco de boas histórias

O bom humor está sempre presente nas tardes deles. Tanto que Ernesto Luiz, de 89 anos, contou que até quando, infelizmente, um deles morre, eles marcam de ir todos homenagear.

"Quando morre alguém aqui e que frequenta muito o parque, logo já combinamos de ir ao velório. É respeito, carinho e amizade", disse ele.

O grupo de idosos ainda lembra que na época em que trabalhavam, estavam acostumados com o ritmo e que, de repente fazer essa pausa longa, se torna uma grande mudança. Mas ainda assim, é possível se manter ocupado no tempo livre.

"Não tem frio que nos afaste, só na chuva que é mais difícil. Outra coisa que nos preocupa é a segurança, pois quando anoitece temos medo de assaltos", contou Emílio Pereira, de 61 anos.

Na foto: Otávio Portes Pilar, de 84 anos, Raimundo Idalino, de 73, José Ilto Vieira, de 67 e Francisco Ferreira, de 88 — Foto: Giuliano Gomes/PR Press
Na foto: Otávio Portes Pilar, de 84 anos, Raimundo Idalino, de 73, José Ilto Vieira, de 67 e Francisco Ferreira, de 88 — Foto: Giuliano Gomes/PR Press

Bem físico e mental

Conforme a médica geriatra Ivete Berkenbrock, que também é vice-presidente da Sociedade de Geriatria e Gerontologia, os jogos geram vários benefícios porque além da socialização, também estimulam a capacidade cognitiva, o raciocínio lógico, a coordenação motora, a inteligência e a memória.

"Antes falava-se muito em ter uma qualidade de vida, mas hoje preferimos falar em uma capacidade funcional preservada, para assim ter um envelhecimento saudável", explicou ela.

Porém, a geriatra ressalta que é preciso ter consciência que esse é um processo que inicia antes do envelhecimento, com alimentação adequada, prática regular de atividades e contato com a rede familiar e de amigos.

Segundo a médica, a prática de sair de casa para jogar em praças e parques parece ingênua, porém essas atividades são importantes para a saúde mental e a prevenção de doenças degenerativas.

"Os idosos podem até achar que é bobagem, mas além de ser um ótimo passatempo, pode ajudar na saúde. É importante a pessoa manter-se autônoma e independente no maior tempo possível".

 

Idosos mantêm tradição de encontros no Passeio Público de Curitiba — Foto: Giuliano Gomes/PR Press
Idosos mantêm tradição de encontros no Passeio Público de Curitiba — Foto: Giuliano Gomes/PR Press

Vidal Rossa, de 64 anos, afirmou que desde que começou a jogar, a memória melhorou. "Já consigo decorar e lembrar mais coisas do que antes. Caminho de manhã e venho aqui a tarde. É bom demais, tomara que com a reforma do parque não tirem as mesas. É uma preocupação que a gente tem", afirmou.

O ideal, de acordo com a geriatra, é que se faça um pouco de cada exercício regularmente. É importante aliar uma atividade que seja em grupo porque faz com que a pessoa também combata uma das grandes doenças que é a depressão e a solidão.

Conforme a médica, a prática de jogos pode auxiliar na:

  • Inteligência;
  • Integração;
  • Atenção;
  • Controle de ansiedade;
  • Nomeação e compreensão;
  • Memória visual e espacial;
  • Capacidade perceptiva e motora.

 

José de Oliveira, de 57 anos, e João Pedroso, de 69, no Passeio Público de Curitiba — Foto: Giuliano Gomes/PR Press
José de Oliveira, de 57 anos, e João Pedroso, de 69, no Passeio Público de Curitiba — Foto: Giuliano Gomes/PR Press

Oswaldo Piller, de 76 anos, também conta que se tirarem as mesas, eles não sabem para onde ir.

"Deus o livre! Ia quebra as nossas pernas. Aqui é nosso cantinho favorito", disse.

Expectativa de vida maior

De acordo com a projeção populacional para o período 2017-2040 do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes), em 2022, Curitiba terá mais moradores acima dos 60 anos do que crianças e pré-adolescentes até 14 anos.

Para uma população projetada de 1.937.699 para daqui a quatro anos em Curitiba, serão 332,6 mil (17,16%) pessoas com mais de 60 anos.

Ainda conforme o Ipardes, na escala de envelhecimento, o número de idosos na cidade deve subir para 432,5 mil em 2030 e 544,5 mil em 2040.

Pelo Censo Demográfico de 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os residentes em Curitiba, de ambos os sexos, com idade acima de 60 anos, representavam 11,30%, ou seja, cerca de 200 mil pessoas.

 

De acordo com a projeção populacional para o período 2017-2040 do Ipardes, em 2022, Curitiba terá mais moradores acima dos 60 anos do que crianças e pré-adolescentes — Foto: Giuliano Gomes/PR Press
De acordo com a projeção populacional para o período 2017-2040 do Ipardes, em 2022, Curitiba terá mais moradores acima dos 60 anos do que crianças e pré-adolescentes — Foto: Giuliano Gomes/PR Press

O parque

O Passeio Público é o mais antigo parque municipal de Curitiba, conforme a prefeitura. O local foi inaugurado em 1886. Passou por várias transformações ao longo do tempo, e foi até conhecido como Jardim Botânico.

Em 1887, foram inaugurados oito lampiões a gasolina, mais tarde aumentados para 17, doados pelo comércio e a indústria da cidade. Ainda em 87, brilhou pela primeira vez na noite curitibana uma lâmpada incandescente de luz elétrica.

Os portões do Passeio Público foram inspirados no portão do Cemitério de Cães de Paris — Foto: Natalia Filippin/G1
Os portões do Passeio Público foram inspirados no portão do Cemitério de Cães de Paris — Foto: Natalia Filippin/G1

O Passeio Público também foi o primeiro zoológico da cidade. Os portões do parque foram inspirados no portão do Cemitério de Cães de Paris.

De acordo com a prefeitura, atualmente, o Passeio funciona como sede do Departamento de Proteção e Conservação da Fauna e abriga os pequenos animais que permaneceram quando o Zoológico foi transferido para o Parque Iguaçu, em Foz do Iguaçu, no oeste do Paraná.

O Passeio Público foi o primeiro zoológico de Curitiba — Foto: Natalia Filippin/G1
O Passeio Público foi o primeiro zoológico de Curitiba — Foto: Natalia Filippin/G1

Sobre a falta de segurança, queixa do frequentador Emílio, a Guarda Municipal afirmou que o parque conta com um módulo fixo do Grupo Tático de Motos (GTM), que faz patrulhamento interno e externo.

Além disso, segundo a Guarda, "há efetivo permanente de guardas municipais para rondas preventivas em todo o perímetro do local".

A respeito da reforma no parque, a Secretaria Municipal do Meio Ambiente (SMMA), da Prefeitura de Curitiba, disse que está contemplado no projeto de revitalização espaços para as pessoas idosas, portanto, não há riscos dos senhores ficarem sem lugar para praticarem suas atividades.

Grupo composto por homens de 50 a 90 anos se encontra de segunda a sexta-feira para jogar baralho, dominó e conversar — Foto: Natalia Filippin/G1
Grupo composto por homens de 50 a 90 anos se encontra de segunda a sexta-feira para jogar baralho, dominó e conversar — Foto: Natalia Filippin/G1
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